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17 outubro, 2011

Por que você quis ser Jornalista? A Gramática, a ética e a responsabilidade social




Certo dia estava indo para a faculdade e ao entrar no ônibus universitário a Glória, antes mesmo de me dar “oi”, me indagou abruptamente: “por que tu escolheste o Jornalismo como profissão?”. Sentei ao lado dela e respondi: “Bem, eu amo ler e escrever. Além disso, vendo tanta injustiça, sempre quis ajudar a sociedade de alguma forma, principalmente com a população que não tem voz nem vez e no Jornalismo posso ajudar os cidadãos, fazendo assim alguma justiça social, aproveitando a pressão da mídia e a exposição dos fatos”. A Glória esboçou um grande sorriso e me entregou uma revista, não lembro qual. Nela havia uma reportagem sobre a profissão de jornalista. O texto começava assim: “Pergunte a qualquer jornalista o que o motivou a escolher a profissão. Além de responder que adoram ler e escrever, não serão poucos os que dirão que foram movidos por certo senso de justiça”. 

Pois é, Jornalismo é dom. E dom inato. Tudo começou em 1989, quando eu tinha 11 anos de idade. Meu pai sempre foi assinante da Zero Hora e todos os dias eu esperava ansiosamente a hora do almoço, pois ele chegava do trabalho com a Zero Hora em mãos. Todos os dias a mesma briga: minha mãe gritando para que eu fosse almoçar e eu pedindo que esperasse, pois tinha que ler o jornal. E lia “de cabo a rabo”. Mas o que me prendia eram as notícias sobre casos de impunidades, de injustiças e de denúncias que ganhavam publicidade nas páginas do jornal. Eu elegia as melhores “manchetes” e corria para TV, a fim de assistir a repercussão. 

No dia seguinte o ritual se repetia e eu procurava nas páginas da Zero Hora a continuidade do caso que havia lido no dia anterior e novamente corria à frente da TV, vibrando com os casos que haviam sido solucionados (fosse um crime ou um simples problema de saneamento ou calçamento em um bairro) que beneficiasse a população. 

Comecei então a recortar e guardar as principais notícias e os cadernos especiais que a Zero Hora fazia dos mais variados assuntos. Até hoje tenho toda a coleção de jornais que juntei desde aquela época. Meu pai, percebendo meu interesse, me chamou um dia até o quarto dele e retirou do guarda-roupa uma pasta. Nela estavam recortes de jornais antigos com vários assuntos interessantes e históricos, como uma reportagem beeeeem antiga sobre o Titanic. Ele me mostrou um por um, enquanto meus olhos brilhavam, e por fim, me entregou a pasta dizendo: “É para tua coleção, guarde e faça bom proveito”. A partir daí cada coisa interessante que saia no jornal ele se antecipava e separava para mim.

Quando chegou a hora do vestibular não titubeei: “quero ser jornalista e me formar na Unisinos”. Fiz um único vestibular, pois se não passasse para Jornalismo, e na Unisinos, não queria outro curso, nem outra universidade. 

Mas por que esse assunto agora? É que para ser Jornalista não basta cursar faculdade, tem que nascer jornalista. Que fique registrado, porém, que sou totalmente a favor do diploma. O Jornalismo é mais que uma profissão, é um estado de espírito. E ver jornalistas ostentando um diploma do qual não são merecedores, me causa indignação e fere meu senso de justiça. Da mesma forma que não admito ver um médico que se recusa a salvar vidas, um advogado que age fora da lei ou uma babá que maltrata crianças não admito jornalistas que não honram a profissão. Tenho visto ‘colegas’ que só visam fama e status, que só querem aparecer e ter seu nome conhecido. Ora, como disse um professor que me deu aula na faculdade, quem quiser ser famoso e aparecer na TV que coloque uma roupa bem curtinha e vá rebolar no É o Tchan. Quem quer teu seu nome conhecido em todo país que pose nu para uma revista, mas não use uma profissão tão digna para fins próprios. A missão do Jornalismo é servir à sociedade e, mais do que informar, tem que formar e educar cidadãos: a maior missão do Jornalismo é praticar a responsabilidade social. 

E por falar em educar, se depender de alguns ‘colegas’ da imprensa escrita a população não terá nenhuma ajuda com a gramática. No início deste artigo contei um fato que ocorreu comigo, quando minha amiga me entregou uma revista onde havia uma reportagem sobre o que leva alguém a cursar Jornalismo. Além do papel cívico, um jornalista tem que, no mínimo, amar ler e escrever. E se ele ama ler e escrever conhece muito bem a gramática da língua pátria. Começa por aí.  O primeiro requisito dos mais básicos para quem tem verdadeiramente o dom jornalístico é o dom de lidar com as palavras, é o amor por elas e a facilidade em colocá-las no papel. Não acredito na vocação jornalística de quem não sabe escrever. Além do mais, os jornalistas têm muita credibilidade: se um jornalista disse é porque é verdade, se um jornalista escreveu assim é porque está correto. E aí? Vai ensinar o povo a escrever errado?

Um ‘jornalista’ que não conhece as mais básicas das regras gramaticais, como a que diz que não se separa com vírgula o sujeito do verbo, está se aventurando pela profissão. Ah, mas então quer dizer que um jornalista não pode errar? Sim, pode! E erra, se engana, comete falhas, mas daí você sabe que foi um caso isolado, um erro de digitação, a pressa. O que vejo, porém, são sucessivos e inadmissíveis erros. Sim, a língua portuguesa é complicada. Mas não para um jornalista que realmente nasceu para a profissão. Desculpem-me a expressão, mas quando leio um texto cheio de erros tenho vontade de fazer o ‘jornalista autor’ comer a página! Pior que isso é que conheço pessoas que além de serem jornalistas são professores de português e não dão uma dentro! Aí é de doer e pensar no porquê a educação do país está como está.

Para finalizar, jornalista de verdade não manipula informações. O que vejo de ‘colegas’ distorcendo e omitindo verdades para fins próprios, e principalmente lucrativos, é de doer na alma. Sei que a imparcialidade jornalística é mito, pois somos seres humanos e temos nossas opiniões e preferências. Porém, mentir descaradamente, distorcer e passar informações falsas para se vingar de alguém, extorquir alguém ou conseguir benefícios para si é inadmissível. Pior que vi uma jornalista respondendo uma pergunta de um cidadão e mentindo descaradamente para se vingar de políticos com quem ela trocou votos por um emprego que não veio. Isso é uma questão de má índole, de falta de caráter, de escrúpulos e um verdadeiro jornalista, aquele que nasceu com dom para a profissão, jamais a mancharia com atitudes tão vis. 

Enfim, além dos aventureiros, os que se auto-intitulam jornalistas sem nunca terem passado por uma universidade, temos que agüentar também os que ostentam um diploma sem fazer jus a ele. É urgente que se crie um Conselho Federal de Jornalismo para regular essas ações. Assim como médicos, advogados e tantos outros profissionais perdem suas credenciais por não exercerem dignamente suas profissões, jornalistas e pseudo-jornalistas precisam ser fiscalizados ou a profissão perderá seu prestígio e seu verdadeiro objetivo.

2 comentários:

meumundoempartes disse...

Oi, gostei muito do seu texto! Pretendo cursar Jornalismo, mas estou em dúvida!! Seu texto me ajudou muito, me identifiquei! Obrigada, sucesso!

Tatiana Vasco - Jornalista Diplomada disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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