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25 agosto, 2009

O Velho Caudilho - Agora Universitário

Em 2005 fiz o perfil de uma figura folclórica que fez e continua fazendo história na cidade de Triunfo. É por isso que resolvi dar continuidade ao perfil, contando as novas proesas do político eternizado como "prefeito de Triunfo". O perfil ficou maravilhoso, não porque eu o escrevi, mas porque Bento Gonçalves dos Santos, hoje com 69 anos, tem uma trajetória riquíssima que privilegia qualquer texto. Em homenagem ao "Vovô" que agora está cursando Direito na Unisinos, republico esse perfil atualizado. Acompanhem, vale muito a pena!


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Bento Gonçalves dos Santos foi condenado pela Justiça, mas absolvido e glorificado pela população. Não é raro caminhar pelas ruas de Triunfo e encontrar pessoas relembrando com saudades da “época do Bento”.


Não é fácil descrevê-lo. Bento Gonçalves dos Santos é uma figura folclórica, conhecido em todo o Rio Grande do Sul e até mesmo no Brasil inteiro pelos amantes da política.


O pai lhe deu o nome em homenagem ao general Bento Gonçalves da Silva, nascido na cidade de Triunfo. Seria admiração pelo herói farrapo ou pressentimento paterno de que nascia naquele dia 24 de junho de 1940, em Cruzeiro do Sul (RS), um novo líder, destemido e valente como o revolucionário gaúcho?


Explosivo, de punho forte, Bento nunca foi homem de meias palavras. “Sempre fui muito direto e franco. Digo o que penso e assumo o que faço”. E azar de quem não goste!


Quando jovem queria ser jornalista ou advogado, mas diz que não estudou por preguiça. Aos oito anos de idade entrou para a escola e se apaixonou pela primeira professora, a senhora Núbia Costa Saraiva que lhe deu aulas também durante todo o ginasial. Três de suas netas têm o primeiro nome de Núbia em homenagem à mestra.


Apesar de não ter participado da Guerra dos Farrapos, Bento sempre foi um guerreiro. Apaixonado por cavalos e pela lida do campo, desde criança aprendeu o serviço pesado. Acordava todas as manhãs muito cedo e antes de ir para a escola ordenhava as vacas com o pai, na chácara para onde se mudaram na cidade de Taquari (RS). Dos 15 aos 19 anos trabalhava à tarde no escritório de um moinho de trigo e à noite fazia horas extras no ensacamento e carregamento. A manhã era reservada para os estudos.


O gaudério cresceu. Em 1965 Bento se mudou para a cidade de Caiçara, onde se casou pela primeira vez e teve cinco filhos – Prudêncio Franklin, Bráulio Tovar, Gaspar Martins, e Bento Gonçalves dos Santos Filho. O quinto filho, Assis Brasil, morreu aos três anos de idade, afogado na banheira. Esse é lembrado por Bento como o momento mais triste de toda sua vida, que já tinha destino certo para fazer história – a cidade de Triunfo, para onde ele foi transferido em 1966 quando trabalhava como fiscal do ICM pela Secretaria Estadual da Fazenda.


Foi aqui que ele ingressou na política. No ano de 1972 queria concorrer a vereador. Como ninguém do seu partido (Arena) quis concorrer pela chapa majoritária, Bento encarou o desafio e foi eleito prefeito pela primeira vez. Apresentou a cidade ao progresso trazendo para cá as duas primeiras agências bancárias, facilitando a vida dos moradores que não precisavam mais se deslocar para as cidades vizinhas.


Nessa mesma época recebeu a notícia de que o III Pólo Petroquímico viria para o Estado e com a ajuda do amigo Otávio Omar Cardoso (marido da jornalista Ana Amélia Lemos) conseguiu trazer o Pólo para Triunfo.


Terminado seu primeiro mandato, e como naquela época era proibida a reeleição, Bento foi trabalhar na Caixa Econômica Estadual e mais tarde no gabinete do secretário estadual da agricultura, Baltazar de Bem e Canto. Também foi diretor da Colônia Penal Agrícola, onde por ironia do destino, seria preso anos mais tarde.


Comprovando sua competência política o povo o reelegeu no ano de 1988 pelo mesmo partido, já com a sigla PDS. Bento não decepcionou e a cidade mais uma vez progrediu. Criou órgãos inexistentes como a Secretaria da Saúde e Assistência Social, casas populares, escolas, postos de saúde e asfaltou os 32 quilômetros da principal via de acesso à cidade.


Em 1993 foi secretário municipal de Indústria e Comércio. Tentou se eleger para deputado estadual e não teve sucesso. Três anos mais tarde, Bento, sem pressentir o que o futuro lhe reservava lançou sua candidatura pelo então PPB e pela terceira vez foi eleito prefeito, mas não concluiu seu mandato. Após três anos de governo foi afastado pela 4ª Câmara do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, acusado de desvio de verba pública.


Em seu quarto dia no presídio da cidade de São Jerônimo descobriu que estava doente. Câncer de Tireóide. “Mas bagual macho não se entrega e nem tá morto quem peleia.” Começou então a luta pela sobrevivência. A figura imponente de bombachas e boina não seria tão facilmente derrotada. Um mês depois, em janeiro de 2000, foi realizada a cirurgia e Bento ficou em prisão domiciliar enquanto se recuperava, até agosto do mesmo ano quando voltou ao presídio, dessa vez na Colônia Penal Agrícola de Charqueadas. Para passar o tempo na cadeia ele trabalhava, lia e escrevia muito. Quem conhece a figura forte e valente de Bento Gonçalves sabe que ele é dotado de uma inteligência admirável, mas poucos conhecem seu aguçado dom poético. Na prisão escrevia versos, sempre com rimas que soam como música aos ouvidos de quem o escuta recitá-los. Os temas que o inspiravam (e ainda inspiram) são diversos. Em virtude de sua prisão Bento escreveu um poema do qual transcrevo um verso:


Até parece mentira
que após ter sido eleito
Três vezes para prefeito
em pleitos consagradores
Por bondade de eleitores
da minha comunidade
Eu perdesse a liberdade,
o mais sagrado direito.


A doença que não conseguiu derrubá-lo também não levou sua inspiração e a batalha vencida foi saudada com poesia:


Um ano de tratamento
exames e procedimentos
todos os médicos afirmavam
que eu venci essa peleia
Não sei se foi um milagre
ou força da medicina
mas muita gente imagina
que a cura foi a cadeia.


Datas comemorativas e particularmente especiais sempre mereceram espaço em seus cadernos de poemas. Seu lado sensível e romântico é expresso em versos dedicados à sua segunda esposa, Maria Madalena, com quem se casou há 25 anos e a quem chama carinhosamente de “vovó”. Assim como a política, a sensibilidade está na alma desse galanteador à moda antiga. No último dia dos namorados (como em todos eles) vovó recebeu mais um poema dedicado ao amor que os une, definido por Bento como “Amor Perfeito”.


Em novembro de 2000 recebeu a notícia maravilhosa – uma liminar lhe devolveu a liberdade. Mas a felicidade ainda não havia chegado para ficar e quinze dias depois a justiça cassou a liminar e o mandou de volta para o presídio onde ficou por mais dois anos e três meses. Em dezembro de 2003 o Papai Noel lhe deu de presente a liberdade condicional.


Em 2004 viu o filho Gaspar Martins perder as eleições. Enquanto milhares de cidadãos choravam a derrota nas urnas, o vovô não se deixou abater e mais uma vez foi a fortaleza amparando e consolando aqueles que o procuravam desesperados e preocupados com o futuro da cidade.


Quando indagado sobre a Justiça dos homens ele afirma - “Acredito na Justiça e respeito as suas decisões, apesar de achar que não devo o que paguei. Me angustiava ver as pessoas sem recursos e quando não podia ajudar através das secretarias municipais tirava do meu próprio bolso. Às vezes, meu salário ia quase todo assim”.


E a prisão? – “Não é a pior coisa do mundo” – responde. O lado triste ficou por conta dos amigos esperados nas visitas de finais de semana e que nunca compareceram. “Os amigos e políticos, com algumas exceções, esqueceram que eu existia. Mas sempre aceitei resignadamente o que Deus me destinou”. Com sua simplicidade e sinceridade fez amigos até na Colônia Penal e lá, de dentro da cadeia, nas eleições municipais de 2000, elegeu como prefeito de Triunfo um candidato do PDT, mobilizando uma cidade inteira que deu seu voto a pedido de Bento Gonçalves, eternizado como “prefeito de Triunfo”.


Ele se diz satisfeito com a situação daquela que considera a melhor cidade do mundo. “Triunfo progrediu bastante, principalmente na zona urbana. O ensino e a saúde estão cada vez melhor e em matéria de obras asfálticas o atual prefeito fez muito mais do que todos os outros”.


E a vida política? Ele confessa que tem vontade de voltar a concorrer ao pleito municipal e ser novamente prefeito, mas até 2012 vai se dedicar somente aos estudos. Sim, o velho caudilho não se cansa de fazer história e, no início deste ano, incentivado pela esposa, Bento retomou os estudos e um mês antes de concluir o Ensino Médio foi classificado em 9º lugar no vestibular de Direito da Unisinos. Depois de formado quer atuar nas áreas Penal e Eleitoral: “estou estudando para ser aprovado e vou passar na prova da OAB”, garante empolgado. Aos 69 anos de idade ele se diz encantado com a rotina acadêmica e vai aproveitar a vida para “viver e estudar”, enquanto procura estágio ou emprego para custear a faculdade.


A disposição do vovô causa inveja em quem não tem a mesma força de vontade, viajando de ônibus todas as manhãs de segunda a sexta-feira, de Triunfo para São Leopoldo onde estuda, e ainda faz curso de informática na própria Universidade nas tardes das segundas-feiras. E ele não pretende parar por aqui. Paralelo ao Direito, Bento tem planos para cursar Letras no próximo ano, segundo ele, para “aprimorar a escrita”.


Talvez muitos não partilhem da mesma opinião, mas uma coisa é certa: a cidade de Triunfo foi contemplada com a vida e a história de dois heróis revolucionários chamados de Bento Gonçalves, o da Silva e o do Santos. Este último cada vez mais carismático e admirado, servindo de exemplo e dando uma lição de vida a todos que têm o privilégio de conhecê-lo.


Tatiana Vasco.
Jornalista Diplomada.
13664 DRT/RS

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