Seja bem vindo e esteja bem informado!

*** Todas as postagens e fotos deste blog podem ser reproduzidas desde que sejam atribuídas autoria e fonte, conforme Lei Federal de Direitos Autorais nº 9610 de 19 de fevereiro de 1998. Dúvidas, acesse o site da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (Apijor): http://www.autor.org.br/ ***

as

26 março, 2007

REPORTAGEM

Racismo Multicor

Autores divergem sobre o surgimento do Internacional como resposta a um suposto racismo gremista.

O jornalista Cláudio Dienstmann, estudioso do futebol mundial, possui 300 fotos do primeiro campeonato gaúcho vencido pelo Inter, em 1927. Analisando as imagens, um detalhe chama a atenção do pesquisador: 18 anos após sua fundação, não havia negros no time. Na ata de fundação do Inter, o texto afirmaria que o clube seria aberto a todos, independente de raça, religião, classe política, econômica e social.

Porém, a ata desapareceu. Dienstmann chegou a procurar familiares dos fundadores e não obteve respostas desse documento. “Nunca se soube se foi realmente extraviado ou se deram um sumiço no livro para justificar a não contratação de negros e pobres pelo clube”, supõe. O primeiro negro a vestir a camisa colorada foi Dirceu Alves, em 1928. Ele era atacante da Liga da Canela Preta, coordenada pela Prefeitura de Porto Alegre. Segundo Dienstmann, com a contratação de Alves, metade do quadro social do Inter foi embora. O argumento era que Alves estava recebendo da Prefeitura para jogar, mas o jornalista acredita que o motivo foi o fato de ele ser negro. “Ele era humilde e necessitava realmente de ajuda. O que ele recebeu, na verdade, foi uma fatiota”, salienta. Em seus dois livros Até a pé nós iremos e Meu coração vermelho, que contam a historia da dupla Gre-Nal, Ruy Carlos Ostermann afirma que o Grêmio seria um time de burgueses e brancos que não admitia jogadores negros e pobres. O Inter teria nascido para dar aos discriminados a oportunidade de jogar em um clube de futebol.

Ostermann diz que o Grêmio de Foot-Ball Porto-Alegrense, fundado em 15 de setembro de 1903, por comerciantes filhos de imigrantes alemães e açorianos, submetia os candidatos a sócios a uma investigação, uma seleção elitista e racista. Os negros e os pobres teriam esperado seis anos pela inclusão ocorrida com a fundação do Sport Club Internacional, em 4 de abril de 1909. “O Inter surgiu como um contraponto dos excluídos”, diz o sociólogo Antônio Mesquita Galvão, professor da Unisinos, com mais de 90 livros publicados.

O Inter foi fundado pelos irmãos Poppe, paulistas que vieram morar na capital gaúcha. A maioria dos integrantes era de jovens universitários, filhos de fazendeiros, que iam morar na capital para estudar. O time chegou a ser apelidado de “Clube dos Acadêmicos do Internacional”. Dienstmann considera que, na época, deixar o interior e ir para a capital cursar o nível superior não era privilégio de qualquer um. Para ele, o clube aristocrático não era o Grêmio, mas o Inter. O futebol surgiu como esporte de elite, pois os fardamentos e acessórios utilizados pelos jogadores eram importados. Os negros, recém-libertos, não possuíam bens e propriedades, não tinham estudos e recebiam um salário pequeno. Que condições teriam de adquirir estes adereços e formar um time de futebol? “O problema maior era o econômico e não o racial”, afirma Dienstmann.

O pesquisador diz que o racismo não era uma questão exclusivamente ligada ao Grêmio e ao Inter, mas do futebol em si. Mais do que isso, é uma questão cultural, social e mundial. Vale lembrar que a lei Áurea completava apenas 15 anos quando o Grêmio foi fundado. Ora, depois de longos anos de escravidão não seria de repente que os brancos admitiriam a igualdade das raças, se até hoje, 118 anos após a abolição, o preconceito e a discriminação ainda existem fortemente.

Se por racismo ou questões econômicas, o fato é que o Grêmio não admitiu sócios ou jogadores negros até 1952, véspera do seu cinqüentenário. Foi Saturnino Vanzelotti, então presidente, que decidiu quebrar a traição e contratou Tesourinha, ex-jogador do Inter, mesmo contra um grande movimento de oposição dentro do clube. Uma das manifestações foi dos jornalistas Adil Borges Fortes e Amilton Chaves, que criaram o grupo “Gremistas Vigilantes”. Argumentaram que Vanzelotti não teria consultado o Conselho Deliberativo do clube para efetuar a contratação. “O Tesourinha era uma bandeira como negro e colorado, e era preciso acabar com o fato do racismo no Grêmio com uma grande estrela do futebol”, relata José Luiz Barreto, torcedor colorado e negro. “O negro só podia evoluir através do esporte, vinha de uma camada mais inferior, das periferias, das vilas, não tinha muita credencial para fazer um curso superior. Uma série de fatos sociais o impedia de evoluir”, lembra.

O aposentado Carlos Alberto Loretto, 70 anos, recorda que tinha um primo que jogava no Grêmio e, um dia, levou o pai para assistir um jogo no Estádio da Baixada. “Como o pai era negro, não o deixaram entrar. Ele não deixou de ser gremista, mas nunca mais foi a um jogo”, ressaltou. Loretto diz que já foi chamado de pobre por ser negro e colorado, mas garante que isso nunca o incomodou.

A questão racial também foi enfrentada com bom humor pelo ex-jogador Vicente Rao, criador da primeira torcida organizada do Inter, a Camisa 12, que era vibrante, cheia de bandeiras, foguetes, serpentinas e sirenes. Um verdadeiro carnaval feito pelo povão. A torcida gremista dizia que aquilo era “coisa de crioulo”. Mas a moda pegou tanto que em pouco tempo os tricolores começaram a utilizar os mesmo acessórios. Rao não perdeu a oportunidade, e em um Gre-Nal na Timbaúva, esperou os gremistas começarem a festa e ergueu uma faixa com a frase: “Imitando crioulo, hein!”. Foi Rao também quem criou a expressão “Rolo Compressor”, na década de 1940, quando o Internacional atravessava sua melhor fase.

Contradições também marcam a história dos dois riais, Ironicamente, o time gremista teve seu hino composto por um negro, Lupicínio Rodrigues, em 1953. Já o Inter, conforme Dienstmann, protagonizou pelo menos dois episódios de racismo. O primeiro em 1935, na decisão do campeonato de Porto Alegre. O time precisava de um empate. Aos 42 minutos do segundo tempo o jogo estava em 0 a 0. Nos três últimos minutos o Grêmio fez dois gols e tornou-se campeão. O centroavante Cardeal, único negro do time, foi culpado ela derrota. “Que culpa pode ter um centroavante de um time de tomar dois gols nos últimos três minutos? Não o mandaram embora porque era culpado, mas porque era negro. O certo era tirar o goleiro”, salienta o jornalista.

Outro exemplo ocorreu em 1980, no jogo contra o Esportivo, em Bento Gonçalves. O árbitro Luiz Louruz, Nero, teria cometido um engano prejudicando o Inter. Os jogadores colorados, inconformados, o chamaram publicamente de “macaco”. O fato foi notícia em todos os jornais e o Inter, processado judicialmente. “A discriminação racial sempre existiu, decresceu um pouco em virtude de as pessoas naturalmente crescerem e evoluírem em seus pontos de vista. Hoje acontece ainda, mas em menor escala. No interior do Estado onde há muitas etnias o problema racial é mais acentuado”.

A socióloga Carmem Galvão acredita que o Gre-Nal, antes de ser uma disputa sócio-desportiva, sempre foi uma “luta de classes”. De qualquer forma é a rivalidade e a paixão azul e vermelha que consegue movimentar um estado inteiro e reunir pobres, ricos, negros e brancos no maior espetáculo do futebol gaúcho: o clássico Gre-Nal.


Liga da Canela Preta

A Liga da Canela Preta era composta de vários times divididos hierarquicamente. Havia o time dos lixeiros, dos entregadores de gás, dos garçons, dos coletores de impostos, de todos os departamentos da prefeitura. Os jogadores não eram assalariados, recebiam bonificações e melhores colocações no trabalho, uma espécie de promoção. Ostermann afirma em seus livros que a Liga da Canela Preta era composta somente de negros e excluídos. Dienstmann contraria essa versão. Segundo ele, nem todos os jogadores eram negros, mas sim de classe econômica e social inferior. Eram excluídos por serem menos favorecidos, não por serem negros.

Carla Wendt, Jaqueline Vargas, Tatiana Vasco.

 ______________________________________________________ Reportagem feita para a Revista Primeira Impressão da Agência Experimental de Comunicação (AgexCom), da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. São Leopoldo/RS. Publicada na 25ª edição em julho de 2006.

Posteriormente publicada no blog Supremacia Colorada

2 comentários:

Scalon disse...

Muito bom texto Tatiana.
Gostei realmente.

Estou iniciando nas relações públicas. Então é sempre bom ler.

Ja havia lido algumas coisas que tu escreveu na comunidade sobre "odeio o bbb"

Bom, se quiser dar uma conferida no meu blog ficaria lisonjeado.

Vou te adicionar como amigo para não lhe perder de vista.

Obrigadãum.

Alexandre disse...

Em 1º lugar, sou Colorado, pardo, e não se pode negar que exista racismo dentro de torçidas tão numerosas como a de ambos. Mas como explicar as músicas que os torçedores do gremio entoam? Chora macaco imundo? Gremista adora chamar colorado de macaco, de maloqueiro, isso é inegável e está aconteçendo hj, imagine há 50, 80 anos atrás?
Uma torçida sem identidade, que canta além de letras racistas, outras em espanhol...

PERFIS FALSOS NO ORKUT ACABAM EM CADEIA!