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03 maio, 2006

POR UMA OUTRA COMUNICAÇÃO

Entrevista concedida pelo professor Dênis de Morais* à revista Nós da Escola.
Fazendo Média
NE: Um outro mundo só é possível se houver um processo de democratização efetiva da comunicação? Por quê?

MORAIS: O sistema de comunicação atual apresenta duas graves distorções:1) a propriedade dos meios está absurdamente concentrada nas mãos de um reduzido número de grupos empresariais, a maioria deles transnacionais, que controlam a produção e a difusão de grande parte das informações e dos entretenimentos em circulação; 2) essas organizações atuam de maneira praticamente autônoma, priorizando estratégicas mercadológicas que rentabilizem ao máximo seus investimentos e realçando determinados valores na elaboração de suas programações. São vários os impactos e efeitos negativos, e eu destaco dois: a escassa diversidade ideológica nos conteúdos veiculados e a comercialização de bens simbólicos numa proporção verdadeiramente alarmante. É impossível imaginar uma democratização efetiva da vida social sem uma profunda revisão da configuração elitista e mercantilizada da mídia. Afinal, ela ocupa papel decisivo na reverberação de idéias e visões de mundo, interferindo, de modo significativo, na conformação do imaginário social. Para assegurar a livre circulação de informações e o pluralismo cultural, impõe-se um controle democrático sobre esses aparatos ideológico-culturais, principalmente aqueles que são concessionários de canais de televisão e rádio. Se obtêm licenças para operar, é mais do que justo que as empresas concessionárias se submetam a regras e marcos estabelecidos pelo poder público, em consonância com os interesses da coletividade. Os canais pertencem à sociedade, e não aos players de mídia. Do mesmo modo, é urgente uma profunda revisão da legislação sobre os meios de comunicação, a fim de que se fixem marcos regulatórios que contemplem os interesses sociais e coíbam a concentração e a oligopolização dos meios. Exijamos políticas públicas de comunicação assentadas em mecanismos democraticamente instituídos de regulação, de concessão, de tributação e de fiscalização. Políticas debatidas por segmentos representativos da opinião pública e formuladas com realismo, considerando as transformações da era digital e seus efeitos socioeconômicos.

NE: Qual o papel da contra-informação no contexto da globalização?
MORAIS: Contra-informação é uma noção que permite várias interpretações e apropriações. Se a entendermos como práticas de comunicação voltadas à difusão de conteúdos que questionem o status quo e defendam os direitos da cidadania, penso que seu papel é valioso. Trata-se de alargar e interligar, planetariamente, experiências independentes de divulgação, a partir de ações cooperativas e colaborativas capazes de multiplicar e entrosar fontes de informação, fomentando o debate de idéias transformadoras e o pluralismo cultural. A comunicação eletrônica em rede, particularmente a Internet, abre um campo de possibilidades a explorar e aprimorar. As tecnologias digitais introduzem ferramentas comunicacionais de novo tipo e instituem espaços promissores de intercâmbio, participação e mobilização. Com baixo custo, rapidez e arquitetura descentralizada, a rede favorece a difusão extensiva de informações e conhecimentos, sem submetê-los às hierarquias de juízos e aos filtros da mídia convencional. No espaço desterritorializado da Web, movimentos comunitários e organismos sociais podem difundir percepções críticas e campanhas em prol dos direitos da cidadania. É importante, porém, salientar que a Internet constitui uma vertente complementar ou suplementar de informação, expressão e interação. Não substitui ou anula os demais canais, que continuam válidos e bastante necessários. Veja bem: apontar potencialidades da rede virtual em absoluto significa subordinar as lutas políticas ao avanço tecnológico, ou ainda aceitar impulsos voluntaristas que tendem a menosprezar as mediações sociais e os mecanismos clássicos de representação política. Continuo achando que é no território físico, socialmente vivenciado, que se tece o imaginário do futuro.

NE: O que você pensa sobre os projetos de inclusão social pela mídia, TVs e jornais comunitários? Até que ponto são válidos? De uma forma geral eles costumam reproduzir num ambiente específico o discurso da mídia em relação a qual se apresentam como "alternativa"?
MORAIS: Tenho grande apreço pelos projetos de inclusão social através de meios alternativos de comunicação, principalmente os que se estruturam a partir de vínculos com as comunidades pobres e marginalizadas. Isso é fundamental como resposta e reação à crônica desconfiança e mesmo ao desprezo da grande mídia pela vida, pelos valores e pelos modos de expressão da classe operária. Quanto mais rádios, televisões e oficinas comunitárias tivermos, mais chance teremos de contribuir para a formação de consciência cidadã, inclusive dando voz e imagem às aspirações e aos sentimentos das maiorias excluídas. É verdade que, às vezes, percebemos a reprodução de elementos do discurso informativo da mídia num jornal ou num programa comunitário. Embora a renovação discursiva deva ser um objetivo a perseguir, não me parece que a reprodução de certos padrões constitua, em si, um obstáculo intransponível à comunicação descentralizada e participativa. A linguagem, sem dúvida, é fator relevante e deve ser imaginativa e ousada; mas temos que avaliar, simultaneamente, a natureza dos conteúdos transmitidos, sua adequação ao público-alvo, sua coerência ideológico-cultural, sua capacidade de mexer com as emoções e despertar o ânimo dos destinatários para o enfrentamento da realidade. Só não podemos cultivar a ilusão de que resolveremos tudo através de projetos comunitários, por mais que sejam componentes indispensáveis na longa luta pela democratização da comunicação. Temos que perseverar, em todos os planos, para mudar radicalmente a sociedade brutalizada e mercantilizada que aí está. Implica revitalizar a sociedade civil enquanto arena reivindicante, articular forças em todos os quadrantes para revalorizar a política como âmbito de representação de anseios e construir alternativas socioeconômicas e político-culturais humanizadoras.

NE: Como a escola pública pode contribuir para trabalhar com crianças e adolescentes a maneira de lidar com a informação, de se relacionar com a mídia e com a sociedade audiovisual? Como o tema da "democratização da comunicação" pode ser abordado por professores no seu dia a dia com os alunos?
MORAIS: Há vários caminhos para uma ação conseqüente e articulada: projetos de leitura crítica dos meios de comunicação; oficinas de criação de conteúdos informativo-culturais alternativos; oficinas de webmídia para aproveitamento educativo-cultural de espaços virtuais de difusão e interação (blogs, publicações eletrônicas, murais, grupos de discussão, comunidades de interesses); estímulo à pesquisa comparada na Web, para evidenciar como os fatos e os acontecimentos podem ser abordados de distintos modos em diferentes veículos de informação; ciclos de palestras de profissionais comprometidos com o desenvolvimento de projetos sérios de comunicação participativa e inclusiva. Mas tudo isso precisa obedecer a uma concepção estratégica que integre ações formativas e intervenções críticas, no marco de políticas de comunicação de curto, médio e longo prazos. Isto exige um persistente e demorado processo de lutas, campanhas reivindicatórias e pressões organizadas para se democratizar a esfera pública, realçando-se o papel dos meios e sistemas comunicacionais na elaboração de programas, produtos, discursos e linguagens socioculturais não contaminados pela obsessão neurótica de lucratividade - obsessão constitutiva e condicionadora da lógica mercantil e perversa do modo de produção capitalista.

(*) Dênis de Moraes é professor da UFF e pós-doutor em Comunicação pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales.

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