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09 novembro, 2005

ENTREVISTA
GILDO CAMPOS:
O sucesso e o reconhecimento em contraste com a simplicidade.

Cantor, compositor e músico, Gildo José Pereira Campos, natural da cidade de Triunfo, interior do Estado, descobriu seus dons musicais aos quatro anos de idade. Hoje, aos 56 anos, é um artista conceituado e motivo de orgulho para sua cidade. Entrevistado pela jornalista Tatiana Vasco, em uma pequena sala de um dos casarões históricos da cidade, onde está instalada a Secretaria Municipal de Turismo e Cultura, ele fala de sua carreira, de sua vida e se emociona ao lembrar de seu pai que foi sua inspiração para compor a música "É disso que o velho gosta", gravada pela cantora Berenice Azambuja. Simples, humilde e cativante, ele respondeu a cada pergunta cantando trechos de suas músicas.

TATIANA VASCO: Como você descobriu seus dons musicais? Vens de uma família de músicos?
GILDO CAMPOS: Descobri minha aptidão musical aos quatro anos de idade, quando um tio meu esqueceu uma gaita de oito baixos em minha casa. Duas semanas depois, quando ele foi buscá-la eu já sabia tocar melhor que ele, então ele me deu a gaita de presente. Eu sentava num banquinho e minha mãe carregava a gaita para mim, por causa do peso, e colocava-a no meu colo. Fora este meu tio que tocava por hobby, ninguém mais na minha família era músico. Acho que foi um desígnio de Deus. Acredito que não existe acaso, tudo que acontece está previamente escrito. Era para o meu tio ter esquecido aquela gaita. Hoje, dois dos meus filhos seguem meus passos, formam uma dupla de música sertaneja e gaúcha: Daniel, de 19 anos, e o Gabriel, de 16. Querem gravar um Cd e vou ajudá-los, mas não aceito que sejam reconhecidos porque são meus filhos. Eles só farão sucesso se tiverem competência. E isso eles têm.

TV: Quando você começou a compor e a cantar?
CAMPOS: Aos nove anos de idade aprendi a tocar violão e comecei a sentir a necessidade de expor, de cantar, as minhas idéias. Então, aos 10 anos comecei a compor.

TV: Sobre a música "É disso que o velho gosta", quando e onde você a compôs?
CAMPOS: Como todos os jovens da época em início de carreira, eu comecei compondo músicas românticas. Esta foi a minha primeira composição do gênero gaúcho e a compus em 1977.

TV: Essa música fala da vida de um homem simples, do campo e de sua relação comas tradições. Essa é a história da sua vida ou de alguém que você conhece?
CAMPOS: Sim, é a minha história e a do meu pai. Ele era uma pessoa hospitaleira, simples, e que tinha muito orgulho de eu ser artista. Então me inspirei no meu pai. "Churrasco e bom chimarrão...", meu pai criava ovelha somente para carnear e oferecer aos amigos que nos visitavam e tomava chimarrão o dia inteiro. "Fandango, trago e mulher..." Ele ia muito a bailes, tomava o traguinho dele e, de mulher, quem não gosta? "Eu sou um peão de estância nascido lá no galpão", pois nasci em uma chácara, no Passo Raso, 3º distrito de Triunfo, onde mro até hoje. Não foi nada forçado, um dia me sentei para escrever e comecei a lembrar do meu pai, que já havia falecido e a letra foi fluindo. Essa música é uma homenagem póstuma ao meu pai que é o meu ídolo, e foi o meu alicerce. "Aprendi desde criança a honrar a tradição". (Emociona-se)

TV: Essa música foi gravada pela cantora regionalista Berenice Azambuja. É verdade que foi sem sua autorização e que você teria movido um processo contra ela?
CAMPOS: Saiu esse boato. As pessoas mal informadas fazem confusão. Ocorreu o seguinte: de 1974 a 1978 participei do Grupo Açoriano, um grupo de música gauchesca muito importante na época. Eu itegrava o grupo como gaiteiro. Fazíamos shows, tocávamos em bailes e chegamos a gravar um LP. Não existia CD ainda, se alguém falasse em CD seria taxado de louco (Risos). Em 1977, a Berenice procurou o grupo, pois era amiga dos outros rapazes e precisava de músicas para completar um LP. Então, meus colegas me apresentaram a ela que quis gravar a minha música e me pediu parceria. Eu não sabia nada na época, era leigo em termos de música, eu não sabia dos trâmites legais e, muito menos, que tinha 50% dos direitos autorais. Na real, nem sabia o que era. Ela me pediu parceria, me apresentou um papel e eu assinei sem saber que estava abrindo mão dos meus direitos e os cedendo a ela. Não me arrependo porque, talvez, se ela não tinvesse gravado essa música estaria engavetada como tantas outras que tenho e ninguém sabe que existem e tu não estarias aqui hoje fazendo essa entrevista comigo. Ela foi esperta, não posso acusá-la de ter trapaceado, jamais me ocorreu processá-la, pois eu concedi o direito que ela tem. Fui ingênuo!

TV: E como ficam hoje teus direitos autorais? Você ganha uma porcentagem toda vez que ela é regravada?
CAMPOS: Essa música hoje tem mais de 30 regravações de sul a norte do país. Chitãozinho e Xororó, Sérgio Reis, Osvaldir e Calos Magrão, só para citar alguns. Foi regravada até por uma banda de forró, lá no Nordeste. Hoje, sim, a cada vez que ela é regravada eu ganho uma porcentagem, mas não é muito, o compositor ganha muito pouco, e com essa pirataria de Cds, ficou pior.

TV: Em um programa da Hebe Camargo sua música foi cantada e seu nome mencionado pela dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó. Como você se sente sendo o autor de uma música famosa, conhecida nacionalmente e, mesmo assim, sendo para a maioria das pessoas um artista anônimo, simples, que mora em uma cidade pequena do interior do Estado e que trabalha como funcionário público?
CAMPOS: Sou muito feliz. Eu digo para minha esposa que somos felizes, nossos filhos podem estudar, têm saúde. Temos o suficiente para viver. Tenho amigos, o que é a coisa mais importante da vida da gente. Minha vida é cantada de sul a norte do país por cantores famosos e isso para mim é uma honra, um orgulho. Se um dia eu prosperar e for reconhecido nacionalmente vou continuar sendo o mesmo Cará (apelido) que tu conheces, quero poder ajudar a quem precisa. E vou continuar morando aqui em Triunfo, na mesma chácara em que nasci, trabalhando na prefeitura, sendo a mesma pessoa, "amigo dos amigos". Crio os meus filhos nessa, digamos assim, filosofia de vida. Estamos no mundo para ajudar uns aos outros e não para nos espezinharmos. Não quero ganhar milhões e ter que contratar quinhentos leões-de-chácara para ficarem ao redor da minha casa para me isolar do mundo, fazer um muro de cinco metros de altura para me proteger da criminalidade. Porque se tu não faz grandes exibições não corre risco. Imagine não poder mandar meus filhos para a escola com medo de serem seqüestrados! Meus filhos são tudo para mim, dou minha vida por eles, não vou colocá-los em risco por causa de dinheiro. Não vale a pena ter carro importado, jatinho, mansão e não poder andar na rua como ando aqui em Triunfo, ir ao supermercado, por exemplo. Claro que quero ter o melhor para viver bem, mas não quero tudo só para mim. Não posso ter milhões de dinheiro no banco e ver meu vizinho passando fome. Estamos aqui de passagem, não levaremos nada de material. Temos que ter o suficiente para viver, mas poder fazer o que gostamos. Meu maior sonho é poder, um dia, ter dinheiro para ajudar a quem precisa. E se isso acontecer tu vais ver que é isso que vou fazer e que não vou mudar meu jeito de agir. Meu maior prazer, minha maior felicidade, seria poder ajudar os que não tiveram sorte, saber que meu amigo não tem um quilo de feijão para dar aos filhos e que eu posso ir lá e comprar para vê-lo mais feliz. Esse é o meu maior sonho!

TV: Você compôs outras músicas que tenham sido gravadas por artistas conhecidos?
CAMPOS: Atualmente estou acompanhando o Valmir Martins (garoto propaganda da Raspadinha Gaúcha da Sorte). Toco violão para ele nos shows e componho também.

TV: Você foi recentemente num show do Sérgio Reis e o conheceu pessoalmente. Como foi esse encontro para você?
CAMPOS: Acontece que o empresário do Valmir Martins foi quem promoveu o show do Sérgio Reis, na sexta-feira passada, dia 19 de março (2004), em Porto Alegre. Pedi a ele que me desse uma força para conhecê-lo já que ele foi um dos que regravou a minha música e nem sabe quem sou. Fui até o camarim dele antes do show, me apresentei, ele me contou que decidiu gravar a minha música porque estava caminhando em uma rua em São Paulo, a ouviu em uma loja de discos e a achou muito bonita. Entreguei a ele quatro composições inéditas para ele analisar e decidir se quer gravar pelo menos uma. Depois, fui para o meio do público assistir ao show. De repente, ele contou novamente a história da regravação da música e perguntou onde estava o compositor Gildo Campos. Não acreditei, levantei o braço e ele me chamou para o palco para cantar a música que eu compus, a minha música, com ele. Foi muita emoção, me senti realizado!

TV: Quais são seus planos para o futuro?
CAMPOS: Continuar compondo, cantando e me apresentando por aí. Investir nos meus filhos e na carreira deles e ficar aqui torcendo para que o Sérgio Reis goste das minhas músicas e grave alguma. Espero ainda ser reconhecido a nível nacional.

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Entrevista realizada em abril de 2004, para a cadeira de Entrevista e Repostagem.

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