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05 julho, 2005

O Velho Caudilho

Bento Gonçalves dos Santos é um político que reside na cidade de Triunfo, onde foi prefeito três vezes. As pessoas dessa cidade o reverenciam muito e o têm como herói. Mas a maior conquista desse homem apaixonante é a amizade de toda uma população que o admira e o respeita. Fiz o seu perfil para a disciplina de Redação Jornalística II. Acompanhem.

Bento Gonçalves dos Santos foi condenado pela Justiça, mas absolvido e glorificado pela população. Não é raro caminhar pelas ruas de Triunfo e encontrar pessoas relembrando com saudades da “época do Bento”.

Não é fácil descrevê-lo. Bento Gonçalves dos Santos é uma figura folclórica, conhecido em todo o Rio Grande do Sul e até mesmo no Brasil inteiro pelos amantes da política.

O pai lhe deu o nome em homenagem ao general Bento Gonçalves da Silva, nascido na cidade de Triunfo. Seria admiração pelo herói farrapo ou pressentimento paterno de que nascia naquele dia 24 de junho de 1940, em Cruzeiro do Sul (RS), um novo líder, destemido e valente como o revolucionário gaúcho?

Explosivo, de punho forte, Bento nunca foi homem de meias palavras. “Sempre fui muito direto e franco. Digo o que penso e assumo o que faço”. E azar de quem não goste!

Quando jovem queria ser jornalista ou advogado, mas diz que não estudou por preguiça. Aos oito anos de idade entrou para a escola e se apaixonou pela primeira professora, a senhora Núbia Costa Saraiva que lhe deu aulas também durante todo o ginasial. Três de suas netas têm o primeiro nome de Núbia em homenagem à mestra.

Apesar de não ter participado da Guerra dos Farrapos, Bento sempre foi um guerreiro. Apaixonado por cavalos e pela lida do campo, desde criança aprendeu o serviço pesado. Acordava todas as manhãs muito cedo e antes de ir para a escola ordenhava as vacas com o pai, na chácara para onde se mudaram na cidade de Taquari (RS). Dos 15 aos 19 anos trabalhava à tarde no escritório de um moinho de trigo e à noite fazia horas extras no ensacamento e carregamento. A manhã era reservada para os estudos.

O gaudério cresceu. Em 1965 Bento se mudou para a cidade de Caiçara, onde se casou pela primeira vez e teve cinco filhos – Prudêncio Franklin, Bráulio Tovar, Gaspar Martins, e Bento Gonçalves dos Santos Filho. O quinto filho, Assis Brasil, morreu aos três anos de idade, afogado na banheira. Esse é lembrado por Bento como o momento mais triste de toda sua vida, que já tinha destino certo para fazer história – a cidade de Triunfo, para onde ele foi transferido em 1966 quando trabalhava como fiscal do ICM pela Secretaria Estadual da Fazenda.

Foi aqui que ele ingressou na política. No ano de 1972 queria concorrer a vereador. Como ninguém do seu partido (Arena) quis concorrer pela chapa majoritária, Bento encarou o desafio e foi eleito prefeito pela primeira vez. Apresentou a cidade ao progresso trazendo para cá as duas primeiras agências bancárias, facilitando a vida dos moradores que não precisavam mais se deslocar para as cidades vizinhas.

Nessa mesma época recebeu a notícia de que o III Pólo Petroquímico viria para o Estado e com a ajuda do amigo Otávio Omar Cardoso (marido da jornalista Ana Amélia Lemos) conseguiu levar o Pólo para Triunfo.

Terminado seu primeiro mandato, e como naquela época era proibida a reeleição, Bento foi trabalhar na Caixa Econômica Estadual e mais tarde no gabinete do secretário estadual da agricultura, Baltazar de Bem e Canto. Também foi diretor da Colônia Penal Agrícola, onde por ironia do destino seria preso anos mais tarde.

Comprovando sua competência política o povo o reelegeu no ano de 1988 pelo mesmo partido, já com a sigla PDS. Bento não decepcionou e a cidade mais uma vez progrediu. Criou órgãos inexistentes como a Secretaria da Saúde e Assistência Social, casas populares, escolas, postos de saúde e asfaltou os 32 quilômetros da principal via de acesso à cidade.

Em 1993 foi secretário municipal de Indústria e Comércio. Tentou se eleger para deputado estadual e não teve sucesso. Três anos mais tarde, Bento, sem pressentir o que o futuro lhe reservava lançou sua candidatura pelo então PPB e pela terceira vez foi eleito prefeito, mas não concluiu seu mandato. Após três anos de governo foi afastado pela 4ª Câmara do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, acusado de desvio de verba pública.

Em seu quarto dia no presídio da cidade de São Jerônimo descobriu que estava doente. Câncer de Tireóide. “Mas bagual macho não se entrega e nem tá morto quem peleia.” Começou então a luta pela sobrevivência. A figura imponente de bombachas e boina não seria tão facilmente derrotada. Um mês depois, em janeiro de 2000, foi realizada a cirurgia e Bento ficou em prisão domiciliar enquanto se recuperava, até agosto do mesmo ano quando voltou ao presídio, dessa vez na Colônia Penal Agrícola de Charqueadas. Para passar o tempo na cadeia ele trabalhava, lia e escrevia muito. Quem conhece a figura forte e valente de Bento Gonçalves sabe que ele é dotado de uma inteligência admirável, mas poucos conhecem seu aguçado dom poético. Na prisão escrevia versos, sempre com rimas que soam como música aos ouvidos de quem o escuta recitá-los. Os temas que o inspiravam (e ainda inspiram) são diversos. Em virtude de sua prisão Bento escreveu um poema do qual transcrevo um verso:

Até parece mentira
que após ter sido eleito
Três vezes para prefeito
em pleitos consagradores
Por bondade de eleitores
da minha comunidade
Eu perdesse a liberdade,
o mais sagrado direito.

A doença que não conseguiu derrubá-lo também não levou sua inspiração e a batalha vencida foi saudada com poesia:

Um ano de tratamento
exames e procedimentos
todos os médicos afirmavam
que eu venci essa peleia
Não sei se foi um milagre
ou força da medicina
mas muita gente imagina
que a cura foi a cadeia.

Datas comemorativas e particularmente especiais sempre mereceram espaço em seus cadernos de poemas. Seu lado sensível e romântico é expresso em versos dedicados à sua segunda esposa, Maria Madalena, com quem se casou há 21 anos e a quem chama carinhosamente de “vovó”. Assim como a política, a sensibilidade está na alma desse galanteador à moda antiga. No último dia dos namorados (como em todos eles) vovó recebeu mais um poema dedicado ao amor que os une, definido por Bento como “Amor Perfeito”.

Em novembro de 2000 recebeu a notícia maravilhosa – uma liminar lhe devolveu a liberdade. Mas a felicidade ainda não havia chegado para ficar e quinze dias depois a justiça cassou a liminar e o mandou de volta para o presídio onde ficou por mais dois anos e três meses. Em dezembro de 2003 o Papai Noel lhe deu de presente a liberdade condicional.

No ano passado viu o filho Gaspar Martins perder as eleições. Enquanto milhares de cidadãos choravam a derrota nas urnas, o vovô não se deixou abater e mais uma vez foi a fortaleza amparando e consolando aqueles que o procuravam desesperados e preocupados com o futuro da cidade.

Quando indagado sobre a Justiça dos homens ele afirma - “Acredito na Justiça e respeito as suas decisões, apesar de achar que não devo o que paguei. Me angustiava ver as pessoas sem recursos e quando não podia ajudar através das secretarias municipais tirava do meu próprio bolso. Às vezes, meu salário ia quase todo assim”.

E a prisão? – “Não é a pior coisa do mundo” – responde. O lado triste ficou por conta dos amigos esperados nas visitas de finais de semana e que nunca compareceram. “Os amigos e políticos, com algumas exceções, esqueceram que eu existia. Mas sempre aceitei resignadamente o que Deus me destinou”. Com sua simplicidade e sinceridade fez amigos até na Colônia Penal e lá, de dentro da cadeia, nas eleições municipais de 2000, elegeu como prefeito de Triunfo um candidato do PDT, mobilizando uma cidade inteira que deu seu voto a pedido de Bento Gonçalves, eternizado como “prefeito de Triunfo”.

Para a tristeza de uma população ele não quer mais concorrer a cargos políticos. Mesmo aposentado continua trabalhando. Há um mês presta assessoria ao amigo Dirceu Machado Rodrigues em seu escritório de advocacia, em Porto Alegre, e viaja o Brasil inteiro com uma disposição de causar inveja.

E o futuro de Triunfo? Ele aposta no desenvolvimento daquela que considera a melhor cidade do mundo. Talvez muitos não partilhem da mesma opinião, mas uma coisa é certa: Triunfo foi contemplada com a vida e a história de dois heróis revolucionários chamados de Bento Gonçalves, o da Silva e o do Santos.
Tatiana Vasco.

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