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28 abril, 2005

Banheiros universitários entre a educação e os maus modos

O fato: sujeira e depredação. O cenário: banheiros femininos da Unisinos. Personagens: as universitárias.

Todos os dias milhares de estudantes percorrem os corredores da universidade e se dirigem aos banheiros de todos os Centros antes, durante e depois das aulas. Todas elas se deparam com uma cena lamentável ao adentrarem os sanitários: o interior de suas portas é todo riscado por canetas, corretivos e pincéis atômicos.

Se para uns é diversão dedicar tempo à leitura do que lá está escrito para outros é uma falta de consideração e respeito. “Quem escreve não pede o consentimento das outras pessoas, não pergunta se elas querem ler”, desabafa Vera Haas, professora de Latim e Literatura do Centro das Ciências da Comunicação, que diz se defender das leituras nada instrutivas evitando olhar para o interior das portas.

De política à pornografia
Os conteúdos encontrados são diversos, desde anúncios de festas, recados para o ser amado, opiniões sobre política e economia, protesto ou elogios à Unisinos. Mas, o que realmente domina são questões ligadas à sexualidade. Algumas mulheres pedem conselhos por terem uma determinada idade e ainda serem virgens, outras informam que são casadas e que em companhia do marido procuram uma garota interessada em orgias a três. Há as que simplesmente relatam o que fazem com seu namorado descrevendo os mínimos detalhes. Um fato curioso pode ser conferido no banheiro do Centro Administrativo, popularmente conhecido como “Redondo”, em frente ao Station Coffee. Na segunda porta do banheiro feminino uma aluna escreveu um texto admitindo ser homossexual e estar apaixonada por outra garota e pede conselhos sobre o que fazer já que sua família é contra o relacionamento. O que chama atenção é que todas as mulheres que usaram aquele sanitário e leram o pedido de ajuda da menina parecem ter se compadecido de sua situação e deixaram escrito o seu parecer. Algumas deram força para que ela enfrente a família e lute pela sua opção, outras revelaram preconceitos sobre a situação sugerindo que ela experimentasse um relacionamento heterossexual, ou simplesmente desejaram boa sorte.

Freud explica?
Rosana Cecchini de Castro, professora de Psicologia do Centro de Ciências da Saúde e profissional do Pipas (Programa Interdisciplinar de Promoção e Atenção à Saúde), que funciona na antiga sede da Universidade avalia a situação. Para ela o que leva as pessoas a tomarem esse tipo de atitude é o fato de a sexualidade ainda ser tabu dentro da nossa cultura, gerando ansiedade e fazendo com que mesmo as mulheres mais liberais não a desenvolvam com tranqüilidade. “As pessoas escolhem o banheiro para escreverem esse tipo de conteúdo por ser um local de muita intimidade e porque em nossa sociedade sexualidade e sujeira sempre estiveram associados”, diz a psicóloga. Essa problemática foi debatida e analisada também por uma turma de estagiários de psicologia, alunos de Rosana. Para alguns um fator que pode desencadear esse tipo de atitude é que talvez essas pessoas sejam solitárias e não tenham outra alternativa para expressarem seus sentimentos e emoções ou por serem demasiado tímidas procurem o banheiro, um local isolado, secreto e seguro. Mas essa hipótese foi questionada por parte da turma, já que o banheiro é público e freqüentado por um grande número mulheres todos os dias, ou seja, quem expõe seus sentimentos e pensamentos em um lugar assim quer externá-los a uma grande platéia.

Não é você quem limpa!
Mas a questão não pode ser vista só do lado da psicanálise. Riscar e depredar lugares públicos incomoda muita gente, principalmente a quem tem a responsabilidade de mantê-los limpos e em ordem. Ângela Veridiana Moraes dos Santos, de 23 anos e Eloídes Alves Bueno, 42, são funcionárias da Unisinos e responsáveis pela limpeza e manutenção dos banheiros do Centro das Ciências da Comunicação. Elas contam que a limpeza é feita todos os dias pela manhã, tarde, noite e até de madrugada. Devido à grande quantidade de serviço nem sempre dá para limpar as portas dos sanitários diariamente. Mas o que as frustra é o fato de nem bem serem limpos e já aparecerem riscados e mal cuidados. “É um absurdo pessoas que estão na universidade, ainda por cima mulheres riscarem as portas dos banheiros dessa maneira e não valorizarem nosso trabalho” desabafa Eloídes. Ângela concorda com a colega e salienta que os escritos são, em sua maioria, palavras de baixo calão. “Talvez essas mulheres não tenham como dizer em casa o que sentem e procuram um lugar onde possam se expressar. E infelizmente, esse lugar é o banheiro” palpita.

Educação e respeito
De fato é desagradável entrar em um lugar sujo, riscado e mal cuidado. Dificilmente encontraremos banheiros domiciliares no mesmo estado. Ou será que alguém faz isso em sua própria casa?! O que leva essas pessoas a fazerem esse tipo de coisa, na opinião da estudante de Realização Audiovisual, Cristina Klein é a falta de maturidade. “Esse é o nosso patrimônio. Estamos pagando por ele e queremos um ambiente limpo e decente. Não se faz isso quando se está na escola, muito menos em uma universidade”.

Caminhando pelo Campus e analisando os estudantes é difícil identificar quem seria capaz desses atos de vandalismo e depredação. Sim, é assim que é vista essa atitude pela maioria das pessoas. É certo que motivos internos e externos devem desencadear tal comportamento. Mas as pessoas que não partilham da mesma atitude não a compreendem. Com certeza há muitas pessoas com os mesmos problemas relacionados à sexualidade e nem por isso saem riscando as portas e paredes que encontram pela frente.

É impressionante que essas coisas ocorram dentro de uma universidade e que pessoas com um nível maior de instrução se expressem dessa forma, depredando o patrimônio do lugar onde estudam”. Essa é a opinião de Soraia Zimmermann, estudante de Jornalismo. Com certeza é chocante. O mínimo que se espera de alguém que cursa uma universidade é educação, respeito e responsabilidade. Mas a psicóloga Rosane Castro lembra que esses valores não dependem do nível de escolaridade. É certo que há muita gente educada, respeitosa e responsável que não tenha completado o ensino médio. A questão que fica em voga e sem resposta é: que tipo de profissionais essas pessoas pretendem ser sem terem o mínimo desses valores morais?

A opinião continua unânime entre alunos. Ana Terra Ribeiro, acadêmica de Letras e Luciana Tieppo, de Nutrição concordam que é um desrespeito para com as demais pessoas que pagam pela universidade, utilizam os mesmos locais e os querem conservados. “É bem desagradável estudar em um local onde as pessoas sujam sem respeitar nem aquelas que limpam”, diz Ana Terra. Mas, conforme a psicóloga Rosana, os impulsos sexuais são mais fortes que a moral e os bons costumes. Para saber o que leva essas pessoas a cometerem esses atos seria necessária uma avaliação individual e aprofundada, já que cada caso é um caso.

E os banheiros masculinos?
Comparando os banheiros femininos com os masculinos se constata que as mulheres estão mais pornográficas. Se os homens também deixam recados à procura de um parceiro que compartilhe sua opção sexual, veremos que a sexualidade é menos expressa nas portas dos banheiros, ou exposta de maneira mais leve. Analisando as fotografias tiradas dos banheiros femininos o aluno de Física, Jackson Galvão, afirma que as portas dos sanitários masculinos não estão tão sujas e depredadas como as dos banheiros femininos. “Os homens riscam, mas bem menos que as mulheres”. Caio Conter, aluno de Jornalismo acrescenta que o assunto predominante nas portas dos banheiros masculinos é futebol. “Em segundo lugar vem o sexo. A diferença é que poucos rapazes deixam respostas, não é como as mulheres que abrem fóruns por escrito”.

Liberação feminina. Será?
Talvez o que ocorra é que mesmo com a modernidade e a liberação feminina as mulheres ainda se sintam reprimidas, discriminadas e sufocadas pelas opiniões machistas da nossa sociedade mascarada. Mas isso é motivo ou serve de habeas-corpus para quem picha paredes, portas, classes?

Rosane Cecchini salienta que talvez em outros locais essas pessoas mantenham uma conduta pública impecável. “Quem comete esses atos não faz isso como fato isolado. É parte de sua maneira de ser”.

Seja por problemas, brincadeiras ou imaturidade essa situação incomoda muita gente e é inaceitável para a grande maioria que isso ocorra dentro de uma instituição de nível superior, seja ela qual for. Será que a procura pela ajuda de profissionais especializados não ajudaria essas pessoas a resolverem seus problemas, além claro de acabar com a pichação dos lugares públicos? No extremo dos casos, talvez um psicólogo destine uma parede de seu consultório para exploração e satisfação dos pichadores mais compulsivos.

Tatiana Vasco.

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Este texto foi produzido para a cadeira de Redação Jornalística II. A versão editada foi publicada e mereceu capa no jornal Babélia que é distribuído gratuitamente pela AGEXCOM e também pode ser lido no Babélia On-line.

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